Por Patrícia Lisboa

Uma sindicância foi instaurada para apurar as circunstâncias das mortes da jovem Bianca Fidêncio da Silva, de 28 anos, e do filho dela, Ravi, no Hospital Augusto de Oliveira Camargo (Haoc), em Indaiatuba. O caso revolta familiares das vítimas e gera comoção na cidade.

Bianca deu entrada no Haoc no dia 18 de janeiro e morreu no dia 21, três dias após dar à luz o segundo filho. O óbito do recém-nascido foi confirmado pelo Haoc, nesta sexta-feira (30/1). Desde o nascimento, Ravi estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal do Haoc.

Após o falecimento de Bianca, um Boletim de Ocorrência foi registrado na Delegacia. O caso é investigado pela Polícia Civil como morte suspeita.

Bianca morreu depois de complicações no parto normal, sendo que o pedido para a realização de parto cesariano, segundo familiares, foi negado pelo médico.

No parto normal foi realizada a aplicação de fórceps, segundo o hospital, “procedimento previsto e indicado em situações específicas de emergência obstétrica”.

“Após o parto, a paciente evoluiu com sangramento vaginal intenso, associado à atonia uterina, condição em que o útero não consegue se contrair adequadamente após o nascimento, configurando uma das principais causas de hemorragia pós-parto”, informou o hospital.

“Diante da gravidade do quadro, foi necessária intervenção cirúrgica de urgência, por meio de laparotomia, culminando em histerectomia, medida extrema, porém indicada para o controle do sangramento e preservação da vida materna. A paciente evoluiu com complicações graves, incluindo Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD), condição reconhecida como potencialmente fatal e associada a hemorragias obstétricas severas”, diz a nota do Haoc.

“A Diretoria deste hospital informa que, apesar de todos os esforços da equipe médica e da terapia intensiva neonatal, o recém-nascido de Bianca evoluiu a óbito”, informou a nota divulgada pelo Haoc, nesta sexta-feira.

A diretoria do Haoc afirma que o resultado da sindicância interna será encaminhado à Comissão de Ética Médica do próprio hospital e, posteriormente, ao Conselho Regional de Medicina, órgão legalmente competente para a avaliação da conduta profissional do médico obstetra Gabriel Alvarenga, que pediu afastamento.

Confira, abaixo as íntegras das notas oficiais do Haoc sobre o caso:

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Em resposta à solicitação de esclarecimento sobre o caso obstétrico envolvendo a gestante Bianca Fidêncio, informamos que:

No momento da admissão, no dia 18 de janeiro, por volta das 10h, a paciente manifestou desejo de parto cesariano. No entanto, já se encontrava em franco trabalho de parto, com dilatação cervical de 4 cm, contrações eficazes e batimentos cardíacos fetais presentes e normais, em torno de 130 batimentos por minuto, indicando boa vitalidade fetal naquele momento.

Às 10h45, novo exame mostrou evolução rápida do trabalho de parto, com dilatação entre 6 e 7 cm, o que indicava progresso adequado e tornava o parto vaginal uma conduta viável e recomendada nessa situação, passando a cesariana a ser considerada apenas se surgissem intercorrências.

Às 11h15, a dilatação encontrava-se em 9 cm, praticamente completa, quando foi identificada bradicardia fetal sustentada, sinal de sofrimento fetal agudo. Diante dessa situação, o médico obstetra informou a paciente e seu acompanhante sobre o quadro clínico e explicou que, naquele momento, a via vaginal representava a forma mais rápida e segura de nascimento. Com o objetivo de abreviar o nascimento e reduzir o sofrimento fetal, foi realizada a aplicação de fórceps, procedimento previsto e indicado em situações específicas de emergência obstétrica.

O recém-nascido apresentou peso aproximado de 4 kg e nasceu com sinais de hipóxia, recebendo imediatamente assistência da equipe neonatal especializada.

Após o parto, a paciente evoluiu com sangramento vaginal intenso, associado à atonia uterina, condição em que o útero não consegue se contrair adequadamente após o nascimento, configurando uma das principais causas de hemorragia pós-parto.

Diante da gravidade do quadro, foi necessária intervenção cirúrgica de urgência, por meio de laparotomia, culminando em histerectomia, medida extrema, porém indicada para o controle do sangramento e preservação da vida materna. A paciente evoluiu com complicações graves, incluindo Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD), condição reconhecida como potencialmente fatal e associada a hemorragias obstétricas severas.

Esclarecemos que o Dr. Gabriel Alvarenga é médico obstetra, com formação especializada e ampla experiência nesta unidade hospitalar, não havendo registros prévios de condutas inadequadas ou infrações éticas em sua atuação profissional.

Informamos ainda que a maternidade realiza, em média, 180 partos mensais, com histórico de nenhuma notificação de óbito materno no último ano. Nosso índice de óbito neonatal está abaixo da média do estado e também da média nacional. Os óbitos neonatais registrados decorrem, principalmente, de prematuridade e anomalias congênitas, com taxa de 7,09%, igualmente inferior à média nacional.

Todos os casos são analisados pelo Comitê de Mortalidade Infantil do município, o que demonstra o compromisso institucional com a qualidade e a segurança da assistência prestada.

Sobre o caso em questão, ressaltamos que a atonia uterina é uma complicação obstétrica conhecida, imprevisível em muitos casos, podendo ocorrer tanto em partos vaginais quanto cesarianos, mesmo na ausência de fatores de risco aparentes, sendo amplamente descrita na literatura médica como uma das principais emergências obstétricas.

O parto evoluiu de forma rápida e previsível desde a admissão até a dilatação completa, motivo pelo qual foi mantida a condução por via vaginal, em consonância com os protocolos assistenciais vigentes. A admissão ocorreu às 10h, com parto efetivo às 13h45, caracterizando um período expulsivo relativamente curto, com dilatação total.

Por fim, informamos que a Diretoria do Hospital instaurou uma sindicância interna, cujos resultados serão encaminhados à Comissão de Ética Médica do Hospital e, posteriormente, ao Conselho Regional de Medicina, órgão legalmente competente para a avaliação da conduta profissional.

NOTA INFORMATIVA

O HAOC informa que o médico Dr. Gabriel Alvarenga solicitou afastamento, temporariamente, de suas atividades profissionais no hospital, em razão dos fatos recentemente ocorridos. O Hospital reforça que os atendimentos seguem normalmente, sem prejuízo à assistência prestada à população.

NOTA OFICIAL

A Diretoria deste hospital informa que, apesar de todos os esforços da equipe médica e da terapia intensiva neonatal, o recém-nascido de Bianca evoluiu a óbito.

Esta Diretoria já instaurou sindicância técnica para apuração rigorosa dos acontecimentos médicos relacionados ao atendimento da gestante, conforme já divulgado anteriormente.

Cabe esclarecer, novamente, que as explicações técnicas apresentadas pelo obstetra assistente indicam a ocorrência de sofrimento fetal agudo, condição que motivou a intervenção obstétrica com o uso de fórceps. Trata-se, segundo os esclarecimentos técnicos fornecidos, de uma medida excepcional e emergencial, adotada com o objetivo de preservar a viabilidade fetal.

As graves complicações obstétricas que se desenvolveram, e que também exigiram a realização de intervenção obstétrica invasiva, ocasionaram sérias consequências ao concepto. Com profundo pesar, comunicamos o óbito do recém-nascido.

Esclarece-se, ainda, que a sindicância interna será devidamente encaminhada ao Egrégio Conselho Regional de Medicina, órgão competente para a apuração de denúncias e questionamentos acerca de eventuais atos médicos.

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